Inovação e Tecnologia

Videogame: a origem de uma grande indústria

16/12/2014 • por Flávio Cordeiro

Conheça Ralph Baer, o pai do videogame, e descubra como ser um precursor

Qual é o peso de uma inovação para o desenvolvimento de um setor? Se visitarmos a literatura, além dos conceitos de inovação incremental e radical, com os quais estamos bem habituados, ainda encontramos explicações para inovações tecnológicas que afetam a relação entre as empresas e seus setores econômicos e até inovações que impactam toda uma economia, as chamadas mudanças de paradigma tecnoeconômico, conforme explicado por Christopher Freeman, em 1987.

Nesse sentido, uma questão que surge é até que ponto uma inovação é de fato responsável por uma mudança tão grande capaz de afetar toda uma economia. Outra questão que coloco, quanto ao grau de novidade ou de radicalidade de uma inovação, é sobre a sua capacidade de ser compreendida e aceita ou, por outro lado, criticada e colocada em dúvida quanto ao seu contexto de viabilidade devido à falta de visão daquele que a avalia. Se pararmos para pensar, não é difícil de imaginar que as inovações importantes que marcam uma nova era tecnológica e econômica, em sua origem, não possuem necessariamente todas as condições para que seu potencial seja totalmente aproveitado.

Entre vários exemplos que poderíamos analisar, um deles vem da indústria de games, mais especificamente de Ralph Baer, grande inventor e inovador, que faleceu no último dia 07/12. Ele foi considerado o pai do videogame no mundo, precursor dos consoles e games portáteis utilizados até os dias de hoje.

Nascido em 1922, Baer era engenheiro, judeu, viveu parte de sua vida na Alemanha, de onde fugiu junto com a família do regime nazista. Passou pela Holanda e chegou aos Estados Unidos, onde atingiria, mais tarde, a marca de mais de 150 patentes.

O primeiro aspecto que destacaria sobre ele seria seu perfil empreendedor. Contratado em uma indústria eletrônica, ele recebeu a incumbência de criar um novo aparelho de TV, mas naquela época ele já vislumbrava algo maior, que pudesse haver interação entre o aparelho e seu usuário. Assim, no final da década de 60, surgiu seu grande invento para a indústria de games: o Brown Box.

Mas será que o mercado estava preparado para entender o que aquela invenção representaria, o seu potencial de inovação e de contribuição para toda uma indústria? Baer visitou as principais empresas com o intuito de vender sua ideia, de coloca-la em prática, porém nem todos acompanhavam a sua capacidade visionária e empreendedora. O bom é que essa história teve um final feliz, quando uma empresa chamada Magnavox resolveu acreditar no potencial do seu projeto, lançando-o com o nome de Magnavox Odyssey, que foi o primeiro videogame vendido comercialmente no mundo, segundo matéria publicada no site do Estadão, nessa semana.

Um console lançado no Brasil, na década de 70, que trazia a mesma proposta gráfica, tecnológica e de entretenimento do Brown Box, que talvez vocês não conheçam, foi o Telejogo. Tratava-se de um console, sem cartucho, que tinha apenas três jogos: futebol, tênis e paredão. Horrível para os dias de hoje, mas incrível para aquela época!

Mais tarde, na década de 80, o Genius, jogo portátil de memória lançado no Brasil, também foi um filhote de um jogo interativo chamado Simon, inventado por Ralph Baer. Detalhe: eu jogo o Genius até hoje, mas através de um aplicativo no meu celular. Vale a pena conferir!

O mais interessante é que esses incríveis dinossauros do século passado utilizavam a concepção criada por Ralph Baer de console e modelos portáteis, cujo conceito é utilizado até hoje nos games mais modernos jogados a partir de consoles de última geração e games portáteis. Talvez possamos considerar sua inovação como um grande paradigma tecnoeconômico, sustentado ao longo de tantos anos e que revolucionou toda a economia de games no mundo. Por que não?

Outro ponto relevante sobre inovação que esse importante representante mundial da indústria de games nos faz pensar é a questão da “difusão”, ou seja, a capacidade de uma inovação ser reconhecida e utilizada pelo mercado, seu poder de disseminação. Eu costumo chamar de legitimidade da inovação, ou seja, a inovação aceita, adotada e constantemente reconstruída pelo mercado a partir de seus princípios, sua base, sua essência.

Sem dúvida, Ralph Baer pode ser considerado um ótimo exemplo sobre um completo processo de inovação que passa: (1) pela invenção, momento determinado pelo surgimento de uma ideia com potencial de exploração comercial; (2) pela inovação em si, que representa a própria exploração da ideia já aceita pelo mercado; e (3) pela difusão, que dá início à propagação de novos produtos e novos processos pelo mercado. No mundo dos games, se o jogo em si pode ser considerado por muitos como descartável, o conceito que o sustenta parece ser capaz de atravessar gerações.

Enfim, se existe um exemplo a ser seguido no mundo dos negócios, acredito que Baer possa ser uma boa opção a ser considerada não só como referência de inovação, mas também como referência inspiradora para um empreendedorismo criativo capaz de dar origem a uma grande indústria.

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Quem escreve

Flávio Cordeiro

Diretor em GD4 Estratégia & Gestão

Profissional com mais de 15 anos de experiência executiva nos segmentos editorial, eventos e educação executiva. Respondeu pelas áreas de marketing, planejamento e operações em empresas líderes de mercado como Folha de São Paulo, Valor Econômico e HSM do Brasil, onde foi responsável pelo planejamento estratégico, na função de diretor de marketing. Foi um dos executivos fundadores do jornal Brasil Econômico como diretor de mercado leitor, além de participar de projetos de reestruturação de canais e lançamento de novos produtos em âmbito nacional. Fundador da consultoria GD4 Estratégia &Gestão, que tem como foco o desenvolvimento de mentalidade e execução estratégica de empresas. Atua como palestrante, consultor e professor na área de estratégia, com participação nas bancas examinadoras de marketing, estratégia e TCC da ESPM. Mestrando em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com MBA em Gestão Empresarial pelo Ibmec-SP. Graduou-se em Engenharia de Produção pela FEI e participou das especializações em Comunicação Corporativa da Fundação Getúlio Vargas e Gestão de Mudanças da Business School São Paulo.

POR Flávio Cordeiro

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