Gestão

Muito mais que um GPS

24/06/2014 • por Fabio Milnitzky

Não há dúvidas que o aplicativo revolucionou nossos hábitos no trânsito. Mas, por quê o Waze deu certo? Por que isso não aconteceu com outro GPS?

Enquanto boa parte da torcida brasileira lamentava o resultado de 0 x 0 entre Brasil e México, tive a oportunidade de assistir a uma palestra com o co-fundador do Waze, o israelense Uri Levine. O evento foi organizado por uma entidade judaica que, entre muitas iniciativas, busca aproximar Israel, hub mundial de empreendedorismo, do Brasil. Uri teve a missão de contar em uma hora a história de sucesso do Waze, start-up fundada em 2008 e comprada pelo Google por mais de US$ 1,3 bilhão em 2013. 

Não há dúvidas que o aplicativo revolucionou nossos hábitos no trânsito. Mas, por quê o Waze deu certo? Por que isso não aconteceu com outro GPS?  A resposta é simples: o Waze já nasceu sendo muito mais que um GPS. 

Em minha opinião, o sucesso do Waze deve-se a 3 pilares: uma causa relevante, uma cultura sólida e uma narrativa inovadora. 

Ao invés de tentar criar o melhor GPS do mundo, o Waze entendeu que sua verdadeira contribuição estaria em formular uma nova resposta para um velho problema: ninguém quer passar horas preso no trânsito! O principal papel do Waze foi conectar motoristas para que, juntos, enfrentassem esse problema que aflige as grandes cidades. A interdependência entre os usuários e a empresa existe desde o “D Zero” da empresa. Faz parte de sua vocação. Os primeiros mapas da empresa eram páginas em branco que se transformavam em mapas a partir da navegação dos usuários.

Dessa forma, funcionários da empresa (que odiavam o trânsito) e usuários uniram-se para definir os melhores caminhos. E essa união deu-se por meio de uma causa: melhorar a qualidade da rotina dos motoristas.  O Waze troca a frustração de estar preso no trânsito por informações básicas de tráfego. Dessa forma, os melhores caminhos, muitas vezes opções simples e não pensadas pelos usuários, passaram a ser desenhados diariamente e em tempo real.

Uri também reforçou repetidamente que a cultura do Waze foi construída e pensada. Os três sócios fundadores compartilhavam uma opinião que fez toda a diferença para o futuro da empresa: o Waze era o melhor lugar onde já haviam trabalhado. Decidiram então que era exatamente isso que gostariam que todos os envolvidos com a empresa pensassem:  “Nossa meta era que todos os funcionários e ex-funcionários lembrassem do Waze como o melhor emprego de suas carreiras”. Assim, criou-se um elo comum e um valor organizacional. Uri deixou claro que as exigências em relação à equipe eram muitas, assim como foram muitas as necessidades de troca de equipe. Ao mesmo tempo, conforme o perfil da empresa se moldava, ficava mais fácil entender o papel e contribuição de cada funcionário. Esse sentimento de pertencimento a algo maior, um propósito, fez com que a equipe acordasse motivada todos os dias. Vale lembrar que cada funcionário do Waze recebeu em torno de US$ 1,2 milhão quando a empresa foi adquirida pelo Google. Um sinal de que reconhecimento no bolso também é importante. 

A narrativa do Waze também é totalmente diferente e inovadora. Ao invés de tentar se definir como um GPS, uma rede social ou uma comunidade do trânsito, o Waze colocou o usuário como protagonista de sua proposta de valor. Com um design simples, divertido e intuitivo, os usuários sabem que depende deles o sucesso do aplicativo. Assim, ao entrar no mundo do Waze, o usuário ganha um avatar que evolui de acordo com sua contribuição para a rede. A personalidade leve e lúdica da marca faz com que a experiência de uso do aplicativo seja um agradável contraponto ao trânsito pesado e agressivo das grandes cidades. Uma tacada certeira, que virou case de referência para redes sociais e aplicativos. 

Ao final da palestra, Uri perguntou a um auditório lotado quem utilizava o Waze. Pessoas de 18 a 80 anos levantaram as mãos, assim como eu, que só consegui escapar da tumultuada Vila Madalena graças ao aplicativo. Voltei para casa com o sentimento de que a história do Uri se assemelha com a proposta de valor do Waze: uma obsessão infinita pelo melhor caminho. 

 

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Quem escreve

Fabio Milnitzky

CEO em In Construção de Marcas

Formado em Comunicação Social pela ESPM, pós graduado em Administração pela FIA/USP e especializado em branding pela HSM, Fábio Milnitzky foi responsável pelo desenvolvimento e gestão de marcas nacionais como  XP Investimentos, Grow, Helbor, Colégio Renascença, Suzano, Multiplus, Zolkin, entre outras. Em 2013 fundou a IN Construção de Marcas, consultoria dedicada ao desenvolvimento de identidades corporativas e estratégias de comunicação.