Empreendedorismo

Como funciona a cultura de fracasso do Vale do Silício? - por Julio Carneiro

15/06/2016 • por Julio Carneiro da Cunha

Errar é um processo de aprendizagem que pode ajudar a entender e compreender melhor o seu negócio

Não é nenhuma surpresa que o empreendedorismo no Vale do Silício é sustentado por inovação tecnológica de ponta. A tecnologia lá é baseada na novidade, seja na aplicação de uma tecnologia já existente para um novo uso; numa nova automação de um processo realizado anteriormente por pessoas; ou na criação de novos componentes que atuam diretamente nas atividades rotineiras humanas, influenciando na forma como as pessoas se comportam, especialmente, no aspecto social.

Num local onde a inovação e o conhecimento são bases do empreendedorismo, o sucesso está pautado em como os indivíduos são capazes de estimularem suas curvas de aprendizado para desenvolverem novos conhecimentos. O empreendedor do Vale do Silício naturalmente passa a se focar em ideias e no conhecimento, no intuito de desenvolver novas tecnologias capazes de transformar pequenas start-ups num grande negócio milionário.

A grande pergunta que surge é: como saber se um empreendedor tem essa base de conhecimentos necessários para criar um novo negócio? Quais critérios um investidor vai usar para escolher o empreendedor em quem ele vai confiar seu dinheiro? Se não o bastante, é relevante entender também se um empreendedor tem conhecimentos suficientes para gerenciar um negócio imerso num ambiente de alto risco, onde a taxa de risco é relativamente alta.

Para muitos, a resposta está nas experiências de fracasso que o empreendedor já vivenciou ao longo de sua carreira. Isso se justifica porque os empreendedores do Vale do Silício têm como norma social para o empreendedorismo o fracasso, sendo ele paradoxalmente associado ao sucesso. Para eles, o segredo é não gastar muita energia com algo que aparentemente pode estar com problemas e fracassando, de forma a conduzir um “fracasso rápido”, pivotando-se para uma nova direção.

Entretanto, esse pensamento de fracasso pode a priori parecer contraditório e muitos podem pensar: “Eu nunca contrataria alguém com um currículo cheio de fracassos e más tentativas. Esse indivíduo vai errar de novo comigo”. A questão é pensar no que o fracasso significa. Seria o fracasso fruto de incompetência do gestor ou uma sinalização de acúmulo de experiência dele? No Vale do Silício, o fracasso não é entendido necessariamente como um erro do empreendedor, mas como resultado de um risco assumido de algo que tinha a probabilidade de dar errado. Enfrentar o fracasso quer dizer que por detrás dele existe um empreendedor tendencioso a enfrentar riscos. Isso não é necessariamente ruim no Vale do Silício, onde se valorizam inovações.

Inclusive, o fracasso faz parte da história do Vale do Silício. É errado pensar que toda a indústria de lá sempre se desenvolveu a altas taxas de crescimento. Por exemplo, a indústria de semicondutores que tanto marcou a emergência do cluster local estava em declínio em meados da década de 1980. Mas ao final da década, a economia local se recuperou de forma que novos produtores e fornecedores de microprocessadores (principalmente chips, softwares, drivers de discos e hardwares de rede) iniciaram uma nova era de crescimento. Isto é, as empresas de eletrônicos deram espaço à nova onda de organizações voltadas à tecnologia de informação.

 Não se pode negar que existem fracassos não apenas de tentativas ao novo no processo regular de implementação de inovações. Há também os fracassos previsíveis do declínio natural de toda indústria. Um setor ou uma organização podem fracassar depois que seu ciclo de crescimento assume maturidade suficiente. Ou seja, depois que o mercado de um produto ou serviço que foi amplamente explorado chega num ponto em que ele gradualmente passa a ser substituído por uma nova tecnologia ou inovação. O fracasso nesse caso consiste na incapacidade da organização em ser a própria propulsora dessa próxima onda de inovação.

No Vale do Silício, a busca pela próxima onda de inovação tecnológica é constante dentre as empresas da região. Diante disso, o perfil do empreendedor local é decisivo para que se tenham novas propostas de inovações. Uma das características desse empreendedor é o fato dele ser focado em reconhecer oportunidades (especialmente aquelas focadas em atender clientes) e também em realizar negócios de alto poder de crescimento. Esse ato de tentar captar tendências de um mercado específico e esperar que esse mercado se desenvolva da forma como se planeja envolve riscos. A abstração de tendências por parte do empreendedor requer um esforço de prospecção de cenários futuros dos quais não se têm certezas absolutas.

            Corroborando a isso ainda, as lendas do Vale do Silício dizem que William Hewlett, o precursor local que fundou a HP, disse que: “Se você quer ser bem sucedido aqui, você tem que estar disposto a três coisas: mudar de emprego com frequência, conversar com seus concorrentes e assumir riscos – mesmo que isso signifique fracassar” [tradução minha]. Ou seja, tem-se como princípio de trabalho no Vale do Silício a busca por riscos, mesmo que eles possam gerar fracassos ao empreendedor da região. Atrelado a isso, há ainda uma grande mobilidade de empregados, visto que a mudança de emprego no Vale do Silício não se tornou somente aceitável socialmente, mas virou praticamente uma regra na região. Por fim, ter relacionamentos com a concorrência para entender o que ela faz e também para se criar soluções colaborativas passou a ser uma característica dos empreendedores locais.

Esses três pontos levam a uma única convergência: a busca pela aprendizagem. Seja pela diversidade de funções e trabalhos exercidos; seja pelas trocas realizadas até mesmo com a concorrência ou; seja pelos eventuais fracassos do indivíduo. O intuito desses pilares orientadores parece ser sempre a busca de conhecimentos, o que exalta a importância da aprendizagem, elemento esse que permeia o ambiente do Vale do Silício.

Por outro lado, isso não significa, obviamente, que o empreendedor deve se esconder atrás desse pensamento de aprendizagem como justificativa per se de seus fracassos. Existem dois erros que eu denomino aqui de “fracassos fatais”: 1) O primeiro é o caso do empreendedor agir repetindo os mesmos erros prévios ao fracasso, mostrando que ele não refletiu sobre seu fracasso e, portanto, não aprendeu nada a partir dele; 2) O segundo é quando o empreendedor alega estar sempre aprendendo sem nunca atingir o sucesso. É o caso quando um empreendedor se insere numa nova empreitada no intuito deliberado de apenas aprender, sem grandes compromissos com o sucesso, o que pode fazer com que ele não trabalhe de corpo e alma, limitando desde aí, seu aprendizado. Isto é, se a experiência do fracasso não for capaz de robustecer o repertório de conhecimentos do gestor, ele é um fracasso fatal. Esse sim é maléfico ao empreendedor.

Portanto, o fracasso e os erros podem ser bons quando existe aprendizagem ao empreendedor a partir deles. Cabe ao gestor ter a cultura de encarar o fracasso dessa maneira e buscar, de forma autocrítica, suas próprias falhas, evitando que elas venha a ocorrer novamente.

Lições que podemos aprender

Um dos principais fatores que vêm à tona nessa discussão é a resiliência do empreendedor. Ou seja, sua capacidade de continuar tentando e persistindo em seu projeto mesmo diante de revezes e contingências. O fracasso não deve ser um desmotivador, ainda que seja difícil encarar um aparente término de planos e sonhos. Ele deve ser a compreensão de que o caminho tem percalços e que os fracassos fazem parte do caminho tortuoso de um empreendimento. Cabe ao empreendedor ativar mais uma vez sua perspectiva visionária para enxergar além. Enquanto muitos se enfraquecem e veem nos fracassos o fim da linha de sua carreira empreendedora, criando repulsa e bloqueios mentais a partir dali que o impedem de assumir seus erros e de capturarem lições, o verdadeiro empreendedor encontra na sua resiliência o alicerce para enfrentar de forma serena que erros e fracassos. Assim sendo, erros e fracassos devem ser considerados como ajustes normais a serem ser feitos durante o percurso para o sucesso do empreendedor e não como ponto final de seu caminho. Afinal, nunca vi um grande empreendedor dizer que seu caminho para o sucesso foi ameno e sem fracassos.

A grande questão para o empreendedor está em saber usar dos fracassos para evoluir e aprender. Se os fracassos passarem pelo empreendedor sem que ele reflita sobre eles e sem que o gestor use dessa experiência para colocar novos conhecimentos em seu repertório, os fracassos podem assumir um papel devastador na vida do empreendedor. O fracasso deve ter o papel didático do aprendizado. Ele deve ser visto como um alerta de elementos que não funcionam ou de, no mínimo, alternativas preteríveis. Infelizmente a história do empreendedorismo é contada pelos bem sucedidos, que tiveram mais êxitos em suas carreiras. Não existe um material didático pronto mostrando um rol de erros a serem evitados ou de decisões não ótimas, que bastaria um aluno decora-las que ele garantiria ser um exímio gestor. pelo contrário, o que não fazer não está nos livros, está na realidade empreendedora. E muitas vezes, o que não fazer é tão importante quanto o que fazer.

Portanto, mesmo sabendo que existe a probabilidade de um fracasso, assuma riscos! Isso é inevitável quando se pretende ter um comportamento empreendedor. Mas lembre-se, assim como assumir riscos é algo oriundo da natureza do empreendedor, ser consciente e calcular esse risco também faz parte do preparo do gestor. Afinal, assumir riscos faz parte do negócio do bom empreendedor, mas ser negligente não.

Implicações para o empreendedor brasileiro

Num ambiente turbulento e de maior complexidade institucional, como é o caso do Brasil, os riscos tendem a ser consequentemente maiores. Isso significa que os cuidados do empreendedor em terras brasileiras devem maiores também. Daí surge as seguintes reflexões:

1) O empreendedor precisa se preparar o máximo possível para enfrentar esse ambiente turbulento, o que pode ser feito com treinamentos formais e com a prática na atuação rotineira. Observar o fracasso de outras organizações, principalmente aquelas com atividades semelhantes, serve para enriquecer o rol de conhecimentos do empreendedor;

2) Na busca por inovações frugais, típicas de mercados emergentes, os riscos em termos financeiros podem ser menores, levando a fracassos mais amenos, mas com grande chance de aprendizado. Adicionalmente, a criatividade, que costuma ser elemento base para essas inovações, trazem também conhecimentos que pode servir de aprendizagem ao gestor;

3) Micro e pequenas empresas costumam ter alguns pontos de erros e fracassos comuns entre si. Nesse sentido, seria interessante contar com eventos de socialização para que outros gestores possam aprender o que não fazer a partir do exemplo de outros. A Internet poderia ajudar nisso, fazendo com que empresas não diretamente concorrentes tivessem maior liberdade para conversar sobre seus erros;

4) Para uma produção de bens não intensivos em tecnologia e conhecimento, a aprendizagem em fracassos pode ser oriunda de técnicas de produção, de mercado e de gestão. O fracasso existe em todas as funções da empresa e não somente no desenvolvimento de um produto ou ideia. Assim sendo, a aprendizagem pode acontecer em quaisquer funções também.

            Por fim, independente de onde você esteja, seja no Vale do Silício ou n o interior do Brasil, lembre-se: tenha uma cultura voltada a aprender. É só o aprendizado que pode transformar o fracasso de hoje no acerto lá da frente. Por isso, o grande desafio do empreendedor é aprender a aprender a partir de seus fracassos e erros. Isso só é possível quando o empreendedor tem uma cultura voltada ao seu desenvolvimento pessoal e profissional. Por isso, não se deve lamentar haver fracassos pelo caminho, deve-se lamentar não aprender com os fracassos.

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Quem escreve

É graduado em Administração, Ciências Econômicas, Ciências Contábeis e Marketing. É mestre em Administração de Organizações e doutor em Administração. É professor de programa stricto-sensu em Administração.