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O que penso sobre os justiceiros

16/05/2014 • por Flávio Augusto

O que penso sobre os justiceiros

Ontem foi noticiado em toda imprensa o linchamento de uma dona de casa na cidade de Guarujá/SP. Tudo começou quando, numa página do Facebook, foi divulgada uma fotografia de uma mulher acusada de sequestrar crianças que seriam sacrificadas em supostos rituais de uma religião afro-brasileira. A partir desta foto, iniciaram-se os boatos de que a tal sequestradora se parecia muito com uma moradora do bairro. Antes de chegar a sua casa, a dona de casa foi abordada por um grupo de moradores do bairro que começou a agredi-la em meio a gritos e palavras de ordem, misturados com os gritos desesperados da própria dona de casa dizendo que estava sendo confundida. Gritos inúteis, pois os justiceiros já tinham decretado publicamente a condenação sumária da suspeita. A pena: espancamento, humilhação e morte sem sequer uma chance de defesa.

Alguns que passavam se espantavam com o ocorrido, mas não tinham a coragem de intervir, enquanto outros saciavam sua curiosidade mórbida e acompanhavam cada detalhe como numa final da Copa, filmando por vários ângulos em seus celulares. Ela foi carregada, arrastada, perdeu seus dentes e, seminua, a sua carne foi ralada pelo chão, alguns de seus ossos quebrados, inclusive os ossos do rosto e o seu crânio. Tudo isso na frente de crianças e qualquer outra pessoa que passava pela rua. Ainda durante o ato de justiça, alguém no meio do povo, que – como todos sabemos – é a suposta “voz de Deus”, pergunta: “Será que é ela mesmo?” O justiceiro dispara: “É sim, é bem parecida com a foto”.

Depois do festival de espancamento e humilhação, ela foi amarrada, quando enfim chegou a polícia e a dona de casa foi levada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. O marido da vítima, um porteiro e morador da comunidade por mais de 20 anos, disse que sua mulher foi vítima de uma injustiça. Disse também que ela não praticava magia negra e fazia um tratamento médico de bipolaridade. A sensação de justiça da população a esta altura já se transformou em remorso, pois o consenso é que “matamos a pessoa errada” e os acusados do assassinato da dona de casa já foram identificados, estão sendo procurados pela polícia e responderão pelo crime dentro do rigor da lei.

Eu gostaria de comentar sobre dois aspectos do acontecido. O primeiro é esta frase noticiada em vários meios de comunicação: “justiceiros matam a pessoa errada”. Por trás desta frase dita por moradores e repetida por vários jornalistas fica bem claro a gravidade da inversão de valores que vivemos atualmente no Brasil. Afinal, se a dona de casa era a pessoa errada, então quem seria a “pessoa certa” que os justiceiros deveriam matar? Percebe a gravidade? Não há pessoa certa a ser morta pela população.

A principal característica de um país livre e democrático é o estado de direito. Todos são iguais diante da lei e todos têm o direito a defesa. Isso é uma característica de uma sociedade civilizada que confia em suas leis, no Estado e em seus representantes. Deixar que a população faça justiça com as próprias mãos é um grande retrocesso que se vive atualmente no Brasil. Mas se a lei não funciona e o Governo é omisso? Troca o governo. Simples assim.

O outro aspecto que deve ser levado em consideração é a seguinte reflexão: Por que a população decidiu fazer justiça com as próprias mãos? Porque a população presencia todos os dias a impunidade, a começar pela famosa pizza, termo que representa a impunidade no meio político. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal, a maior instituição que representa a justiça no Brasil, condenou líderes de um partido político brasileiro por corrupção, mandando os autores dos crimes para a prisão, numa decisão inédita do judiciário. O governo brasileiro claramente não apoiou esta decisão, mas, ao contrário, através de seus representantes, desqualifica a decisão da Suprema Corte, afirmando ser uma decisão política. Que mensagem dá o governo à população quando desqualifica o Judiciário?

Tudo isso, em meio à violência urbana que explode nas principais cidades brasileiras, onde a sensação de impunidade é bem presente na população. Essa ausência do Estado e a própria guerra institucional entre os poderes infelizmente abre espaço para esse tipo de manifestação e o surgimento de grupos cansados de serem reféns da marginalidade e que decidem fazer justiça com as próprias mãos. Uma mentalidade que tem sido disseminada, mas que transforma um cidadão comum num assassino e a população que assiste ao show dos justiceiros, cúmplice do crime.

A indignação da população tem essa explicação, mas ela não justifica. O BRASIL NÃO PRECISA DE JUSTICEIROS. Condeno veementemente. O Brasil precisa de mudanças para que a população volte a confiar nas instituições. No entanto, no caminho que trilha, o país retrocede como sociedade, influenciado pelo mau exemplo de seus líderes e pelo abandono do Estado, deixando sua população refém de bandidos e justiceiros.

Tudo isso, bem pertinho da Copa. Essas imagens já estão rodando por todo o mundo e contribuem para a destruição do pouco que resta da reputação de nosso país. Além disso, o mundo inteiro assiste ao declínio de nossa economia e a falta de credibilidade dos dados divulgados pelo governo. Um verdadeiro linchamento público do futuro de nosso país. Um grande desperdício.

PS: Para os mais curiosos, é possível encontrar as fotos e vídeos na internet sobre o relato acima

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Quem escreve

Flávio Augusto

Presidente em T-BDH CAPITAL , Lisboa

POR Flávio Augusto

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